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COMO CRIAR UM QUADRO

Soltando a Imaginação
Imagine uma mulher gorda num vestido roxo. O que vem depois? Cabelo loiro, pele branca, dentes bem conservados, pés grandes, joelhos cobertos de nós, coxas pesadas, grossas. Ela se inclina para o seu namorado sobre um parapeito de concreto, numa pequena praça, em Niterói, onde, certa ocasião, passamos de ônibus. Seus olhos são grandes, o olhar da surpresa. Necessita dizer que ela é uma menina feia? Sequer é uma menina, a menos que você considere suas fantasias. De onde veio? Para onde está indo? O que tem acontecido com ela, o que lhe acontecerá – e isto é mais importante do que o que lhe está acontecendo agora. O namorado a observa, atento. Será que os olhos dela se perdem na distância do mar? Você e eu poderemos concordar com algumas coisas - sua forma, cor, talvez seu olhar de perplexidade. Todos esses detalhes deverão integrar o quadro. Perto, uma mulher passeia com seu cachorro. Adolescentes divertem-se na praia.Na avenida larga, um policial orienta o trânsito. Podemos, até, imaginar que a praça possui um pequeno chafariz fora do alcance da vista e há belas árvores ao longo do bulevar. vista; e há árvores ao longo do bulevar.

Um Nome
A menina de vestido roxo tem nome: Lola Quintero Barbosa, chamada, por sua família e amigos, de Lolly,como ela própria se identificava em sua trôpega linguagem de criança. Observamos seu amante. Tem a fisionomia daquelas figuras ibérico-semitas que se encontram em Goya,. Lembra um mouro. É muito bonito, com um corpo atraente e um olhar carinhoso. Poderia ter trinta anos. Há outros namorados ao lado deles, arrebatados um pelo outro; só existem as sensações do amor que sentem no ar como nas pontas dos dedos. A mulher que anda com seu cão está pensativa, e um dos meninos que joga futebol na praia está a ponto de marcar um gol. Por trás do chafariz( seus olhos estão vendo tudo,) há um rapaz bem apessoado, vestindo camiseta vermelha e calça bege...

A tela foi feita por esse artista carioca , de nome Kleber Figueira, em algum momento dos anos 80. Ela vibra com cores e formas, mexendo com as nossas pálpebras: podemos fazer as figuras se mover. Kleber assim se expressou sobre seus quadros: “Enquanto os faço, estou,invisível, dentro do quadro. . Quando os termino eu me retiro e cedo lugar àquele que vê o quadro. Eu perguntei: “E quando não há qualquer espectador?” - "Talvez os personagens continuem a viver”, respondeu, enquanto limpava os pincéis.

Impulso Religioso
Eu gosto de pessoas que , como o Kleber,me fazem pensar e me fazem rir. Ele era inteligente, espontâneo, espirituoso. Gostava de “cutucar” as pretensões, ora comparando um político local com a rainha Beatriz, ou o sistema monetário internacional aos hábitos de consumo dos brasileiros, ou o estado da mídia antes e depois de 1980. Era culto e letrado, e apreciava os acontecimentos da atualidade ironizando-os, com a distância de um psicólogo comportamental. A humanidade no abstrato era uma piada, as pessoas tão tolas, mas o que ele usava na tela era precisamente o humanitário individual que tanto amava. Basta examinar uma meia dúzia de suas telas, aleatoriamente.

Com exceção da série de xilogravuras, “Bestiário”, de pássaros e animais, seu assunto era a atividade humana e costumes locais, como nas telas e desenhos do folclore brasileiro, danças e celebrações; ou específico, como em muitos temas bíblicos que ele retratou durante anos. Levou a sério o impulso religioso e viu conexões entre o comportamento atual e a mitologia histórico-cultural. Viu na vida cotidiano  beleza e prazer, a atividade humana era mesmo a sua tela: procissões religiosas de dias santos – São Jorge, São Sebastião, Nossa Senhora disso ou daquilo; feriados e paradas locais com unidades militares e muitas bandeiras; figuras do folclore e da história do Brasil; atividades do cotidiano, como homens levando seus pássaros em gaiolas, crianças jogando bolas de gude, meninas no balanço, pulando corda, as famílias no circo, no parque, em casa, homens jogando cartas, pessoas comemorando aniversários, casamentos e batismos.

Nenhuma cena de funeral, nenhum quadro de violência, ...mas dúzias de jogos de futebol com os rapazes nos uniformes coloridos  dos seus times. O que Kleber nos deu é a celebração em si, a celebração de nossa vida diária. Eu observei uma vez a ausência da tragédia em seu trabalho. Olhou-me zombeteiro: "Por que preservar a tristeza?", como se a resposta fosse óbvia. Eu não sou qualificado para fazer analises acadêmicas ou "críticas" sobre o trabalho do Kleber, ou da sua importância na história da arte ou ainda de seu valor comercial. Obviamente é de grande valor.

Até o fim, Kleber viveu com o fato de, como ele dizia: "não vale nenhum centavo, se não há ninguém para comprar." Era um artista genuíno, porque não teve "nenhuma escolha", ele fez o que achava que devia fazer e assim sofreu, às vezes, com a indignidade da pobreza. Mas achava sempre que valia a pena, e citava freqüentemente Fernando Pessoa: "A vida vale a pena quando a alma não é pequena." ...Ou: "A felicidade está onde nós a colocamos, mas raramente a colocamos onde estamos." Eu acredito que isso resume a sua filosofia de vida. A alma deve ser aberta e grande o bastante para conter o mundo. Somos afortunados por temos o mundo do Kleber, sua alma aberta para nós, através do seu legado e da proximidade dos seus quadros e do amor humano que eles demonstram existir no mundo”.

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